Cultura

Das ruas para as galerias: o panorama do grafitti no Brasil sob o olhar de quem vive a arte urbana

Com mais de duas décadas de caminhada, o grafiteiro Erko reflete sobre a transição do movimento da marginalidade ao reconhecimento que hoje molda a identidade das periferias.
Imagens Reprodução do Instagram

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​Nascido nas ruas do Brooklyn, em Nova York, e expandido para o mundo, o grafitti encontrou no Brasil o seu primeiro porto seguro na cidade de São Paulo. Desde os seus primórdios, essa expressão de arte visual urbana tem sido um pilar de resiliência para os seus praticantes, que historicamente enfrentaram forte rejeição por parte da mídia e da sociedade.

Hoje, após um longo processo de evolução e profissionalização, o movimento não apenas conquistou o mercado formal, mas transformou as ruas de regiões como a Ceilândia, no Distrito Federal, em verdadeiros museus a céu aberto.

​Quem conhece bem essa trajetória de contrastes é o artista visual, tatuador e grafiteiro Ricardo, conhecido artisticamente como ERKO (ou ERKO DARK GRAFFS). Nascido no Rio de Janeiro, local onde iniciou sua carreira pintando muros em 1998, ele reside e trabalha no quadradinho há duas décadas, unindo a bagagem da velha escola à efervescência da cultura urbana do Planalto Central.

​O início marcado pela resistência e o estigma do vandalismo

​A consolidação da carreira de Erko não veio sem percalços. No final dos anos 1990, o cenário era marcado por um profundo preconceito, onde o estigma social associava a arte de rua diretamente à criminalidade. Grafitar sob o constante risco da repressão policial e social moldou não apenas a estética das ruas, mas também reforçou uma filosofia de resistência artística e sobrevivência na periferia.

​”No começo era visto como vandalismo mesmo, né? Ninguém tinha essa concepção de arte em cima do grafitti. Já apanhei muito na rua de polícia, já me tomaram material”, relembra o grafiteiro. “Não foi fácil, sofremos um bocado [com] muito preconceito.”

Um cenário promissor e o mercado formal

​Atualmente, o panorama mudou drasticamente. Tanto a grande mídia quanto a comunidade passaram a compreender o valor artístico e o poder cultural da modalidade. O reflexo dessa aceitação impactou diretamente o mercado de trabalho: diversos grafiteiros expandiram suas atuações para áreas como o design gráfico e a arte-final, além de conquistarem espaços de prestígio ao exporem suas obras para grandes marcas e em renomadas galerias de arte.

​Apesar da abertura de portas no mercado tradicional, Erko ressalta que a essência do movimento permanece ligada ao espaço público.
​”A rua sempre foi minha maior galeria. Desde criança, a arte sempre fez parte da minha vida e os muros se tornaram meu caderno, a cidade minha galeria. Hoje, ver um espaço que antes pintávamos correndo risco se tornar um local protegido e valorizado é a maior prova do cenário underground, colaborando com a cultura e com a identidade do nosso povo”, destaca.

​A construção da identidade na periferia da Ceilândia

​Esse impacto cultural é nítido na Ceilândia, cuja paisagem urbana foi transformada por artistas locais e veteranos do movimento, como o próprio Erko. As cores, traços autênticos e desenhos espalhados pela região resgatam a vivência da comunidade e retratam a realidade do povo ceilandense, elevando a cidade ao status de uma das maiores galerias abertas de cultura urbana do país.

​Nessa transição histórica da marginalidade para o reconhecimento popular, o grafitti cumpre um papel social essencial. Ao dar voz e rosto à periferia, a arte de rua faz com que os moradores que vivem afastados do centro da capital passem a ter orgulho do território onde moram, eternizando a identidade e a memória de suas comunidades através dos muros.

Por: Arthur Jesus, Gabriela Santana e Paulo Ferreira. Alunos do curso Jornalismo + IA do projeto De Olho no Futuro, sob orientação da professora Daniela Marques.

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